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O INDECIFRÁVEL BEM-ESTAR

Publicado el 13 de marzo de 2007

INDECIFRÁVEL BEM-ESTAR 

Estar bem, o “bene essere” dos tratados medievais, na realidade é um conceitotranscendental fácil de intuirmas difícil de definir. O bem-estar sempre foi um valorprimordialmente intangívelum estado de consciência que se refere a quem o sente. Atacado por todas partes, está submetido a condições delicadamente instáveisPorse tratar de algo contingentepassageirovolátil e indecifrávelquase sempre é incompleto e está viciado em sua origem pelo implacável passar do tempo. 

Escreve: Enrique SERRANO 

É óbvio que existem aspectos objetivos do bem-estar humano que, como sugerem os componentes do próprio conceito, se asseguram a que cada indivíduo esteja bem, que nada se oponha a sua sobrevivência, nem o ameace em sua integridade física ou moral de modo imediato, que sua saúde e sua alimentação estejam garantidas e seu ânimo seja sereno entre outros aspectos convergentes. Na verdade, carecer de um ou vários destes elementos materiais psíquicos básicos ameaça qualquer tipo de bem-estar, submetendo o homem a uma penúria ou angustia e limitando a evolução da sua natureza. 

Porém, todos estes elementos objetivos não são suficientes para confirmar a existência de tal bem-estar e o impacto dos mesmos é relativo para alcançar este estado de beatitude, sendo que se referem à vida do homem somente nos seus aspectos materiais. Existem outras variáveis que não podem ficar desmerecidas perante as anteriores, todas cruciais para poder construir e percorrer o misterioso labirinto do bem-estar humano. 

O materialismo é uma importante forma de compreender o humano e reduz aspectos decisivos da experiência do gozo, que não estão limitados somente aos sentidos, mas também vinculados ao âmbito da satisfação intelectual.  

Os seres que vivem em condições aceitáveis de salubridade e alimentação começam a construir seu bem-estar quando aprendem a conhecer o que significa, como se alcança, que efeitos produz, como se pode torná-lo perdurável. Sua consciência do bem-estar os leva a dispor dos recursos e dos elementos para que este bem-estar seja possível e perdurável. Mas também os exorta a aprender a aproveitar ao máximo este mistério e a estender este sentimento tentando prolongá-lo o máximo possível.

A qualidade deste bem-estar tende a aumentar quando as pessoas não se conformam simplesmente com os padrões existentes e exigem outros novos ou então os cria e torna possível uma adequação constante dos fundamentos políticos do bem-estar atingido.  

Esta exigência se prolonga quando os grupos sociais percebem o que desejam, de quais meios precisam dispor e o que podem fazer para consegui-los. Em outras palavras, quando as pessoas se apoderam de seu destino individual e coletivo. Somente então, o bem-estar se consolida em algo que pode ser chamado desenvolvimento ou progresso desde uma perspectiva geral que se define aqui como uma experiência coletiva definitivamente assimilada e prolongada do perdurável bem-estar.  

BEM ESTAR E FELICIDADE 

As sociedades não ocidentais, especialmente no que se trata do pensamento religioso, desde a antiguidade têm compreendido e examinado com detalhe este problema. Observaram, entre outras coisas, que enquanto os aspectos objetivos aproximam os seres humanos em sua concepção do bem-estar, porque são materiais e mais ou menos tangíveis, os aspectos subjetivos os separam, particularizando o que cada cultura, cada povo, cada grupo social e inclusive cada geração concebe como a melhor vida possível, a felicidade em si.  

Na tentativa de conseguir tal bem-estar surgem inumeráveis desencontros e complicações, justaposições e conflitos que conspiram contra a autentica satisfação das expectativas humanas.

Cada cultura durante muito tempo acreditou que se enclausurando dentro de suas próprias fronteiras materiais e mentais alcançará o bem-estar sonhado. Porém, inclusive no interior de cada uma existem variadas concepções de bem-estar que não demoram em entrar em contradição. 

Nesse sentido, podemos pensar que realizar um sonho é uma proeza não poucas vezes desmesurada. Por outro lado, nas sociedades abertas se leva muito tempo para aprender a aperfeiçoar alternativas de bem-estar para harmonizar os valores e regular os meios, tornando-os realidade.  

Além do contexto cultural especifico, no qual as sociedades se desenvolveram, cada uma expressa suas prioridades tumultuosamente e ao mesmo tempo, quase em uma estrita falta de ordem.  Neste caso, as metas se deformam e se fundem e os caminhos que levam a estas se sobrepõem uns aos outros, negando-se parcialmente.  

Sendo assim, é necessário levar em conta muitos fatores quando se pretende abarcar o bem-estar nos limites de uma definição. Tudo está influenciado pelos estados de ânimo e eles parecem se dirigir ao acaso ou pelo menos a rumos que não sabemos controlar. Segundo o clássico ensaio de Werner Sombart, O Burguês, a intervenção de fatores espirituais ou psíquicos na vida econômica é tão evidente que sua negação equivaleria a não reconhecer que as aspirações humanas, de uma forma geral, se apóiam em um substrato psíquico. 

RIQUEZA E BEM-ESTAR 

A riqueza não é a fonte da felicidade, diziam os antigos, ainda que sem ela se pode passar por muitas dificuldades. Desencadeia o gozo, secreto procedimento mental e sensível, o que desentranha o sentido do mundo nesse mesmo mundo, o que produz bem-estar e o irradia generosamente para a vida inteira, deixando-a sem  descanso, surpreendida e estática, quase suspendida pelo mágico fulgor de tal descoberta. Essa é a vida, atônita por ter encontrado assim, simplesmente, o que tinha buscado sem sucesso por tanto tempo, aqui se solta, se enche, se deixa ir. 

Portanto, é preciso destacar aqui o indecifrável bem-estar como algo mutante, móvel, frágil e particular. O bem-estar só é universal no abstrato.  

Hoje por hoje no meio de tal profusão de possibilidades de realização, irrompem em tantas vertentes que fica difícil seguir o curso da sua evolução, pois esta multiplicidade de aspectos se relaciona com a diversificação dos sistemas de prioridades que as sociedades contemporâneas foram tecendo no século XX e que reuniram caoticamente neste século que começa.  

Não se pode reduzir então o conceito de bem-estar ao de prazer, nem ao de segurança, ainda que ambos sejam partes vitais do bem-estar. O prazer como uma afirmação exaltada dos desejos e das aquisições humanas é o ingrediente de um imenso engano. Isto porque não existe acordo algum em relação a o que é, a o que implica, a como se pode conseguir, nem a como se pode perpetuar. Epicuro se encontraria hoje em um difícil dilema para filosofar sobre o prazer como as sociedades modernas o entendem, tão fugaz como contraditório. Nem a sexualidade, nem o poder, nem a calma são francamente suficientemente reais para estar em alguma parte o tempo todo. Estes horizontes são algo que se alcança e a liberdade existe para alcançá-los, mas nem sempre por meios que se possam aceitar e em incontáveis ocasiões com deterioro do bem-estar de outros.

BEM-ESTAR E ESTÉTICA 

Também não se pode saber o que é propriamente a segurança. Outro componente central do bem-estar de qualquer sociedade. Estar a salvo, viver seguro, construir ou reafirmar a segurança são coisas difíceis, não somente porque qualquer individuo possa quebrá-la, mas sim porque na tentativa de algumas pessoas de se proteger exacerba o desejo das outras por afetá-los. Os contrastes e as diferencias em matéria de segurança estão fazendo que, por uma parte, não estejam plenamente seguros os que ameaçam porque se sentem também ameaçados pelas possíveis represálias. Por outro lado, se sentem inseguros os que, em meio de sua precariedade, respondem com sua força a estas represálias.  

No mesmo modo, no assunto do bem-estar entram os componentes estéticos. A centralidade da dimensão estética na experiência do bem-estar é tão alta que é ela que determina, de uma vez e para sempre, o que se deseja e como pode se chegar até este fim. Não só se busca o bem-estar em abstrato, mais sim em alguns ideais viventes que muitas pessoas aprenderam a estimar. Outros corpos, outros seres, certos modos, certos estilos, determinados movimentos, ambientes, lugares, atmosferas. Tudo influi mais ou menos em poder atingir o bem-estar prefigurado.  

O estético é a essência do gozo da vida, da percepção do deleite, da satisfação e qualquer aspecto social deve ser transpassado pelo estético para adquirir seu sentido. O esforço para embelecer o meio ambiente, por elevar a condição social e educar de modo mais sistemático o povo são as premissas do esforço estatal por alcançar o bem-estar. Porém, o Estado não é o principal responsável do bem-estar como já foi visto, mas é o conjunto mesmo da cultura e por isso o bem-estar já existia antes que o Estado fosse criado ou tivesse se desenvolvido. 

A educação estética é uma condição sine qua non para o desenvolvimento da experiência do bem-estar. Porque é preciso se preparar avidamente no reconhecimento do bem-estar, no seu desenvolvimento e aperfeiçoamento. Caso não se seja consciente desse efeito, ele se perde e não se pode alcançar para tê-lo por perto e razoavelmente perdurável. 

Este cenário multiforme pode ficar paralisado quando não há critérios claros para decidir o que se quer, nem como se propõe atingi-lo. A experiência do bem-estar exige autonomia e evolução estética para se realizar plenamente. Sem elas, a vida não pareceria boa, nem digna de ser vivida (aresprensa.com).  

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Enrique SERRANO

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