logo_aresprensa_notas
RIGIDEZ ESTRATÉGICA E FLEXIBILIDADE TÁTICA NAS PROPOSTAS DE CARACAS PARA BOGOTÁ: A COLUNA VERTEBRAL

Publicado no dia 10 de outubro de 2007, às 16 horas e 30 minutos de Bogotá D.C.

A Realpolitik venezuelana aspira reduzir o peso de Washington na Região e também pretende o Nobel da Paz para Hugo Chávez 

RIGIDEZ ESTRATÉGICA E FLEXIBILIDADE TÁTICA NAS PROPOSTAS DE CARACAS PARA BOGOTÁ: A COLUNA VERTEBRAL DA EXPANSÃO BOLIVARIANA 

Os movimentos de Caracas no plano sul-americano estão dirigidos com ênfase à neutralização da Colômbia, o único obstáculo de peso na zona para a construção de um projeto supranacional denominado antiimperialista e com vocação de perfil socialista, em termos de organização social. O capítulo da aproximação das FARC na busca de um reclamado processo de humanização do enfrentamento, entre as forças ilegais e o Estado colombiano, é uma parte da estratégia do ensinamento da militância marxista que avança, retrocede ou pega atalhos, segundo as circunstâncias. Essa estratégia não exclui a postulação provável ao Prêmio Nobel da Paz para o caudilho venezuelano, a despeito do delirante que tal possibilidade possa parecer no momento. Ainda que se apresente como a manobra de um prestidigitador, o mandatário venezuelano ofereceu, inclusive, colocar sobre a mesa a velha discussão das diferenças territoriais com a Colômbia para buscar uma solução, um tema que sempre foi revulsivo para a opinião venezuelana, que enturvou as relações de ambos os países e os levou, há duas décadas, ao borde da guerra. O certo é que esta visão de longo alcance que expõe Caracas parece ser bifronte e recorda a velha política da cenoura e do chicote. Nesse jogo, a influência dos Estados Unidos, com base na Colômbia, diminui seu espaço de manobra por omissão. Efetivamente, é desde Washington, sobretudo desde o Congresso, que Bogotá é alertada sobre o cenário geopolítico gelatinoso que a conduz a escutar e, inclusive, beneficiar-se do ramo de oliveira que a Venezuela lhe oferece.   

        

 Escreve: Kerensky II* 

É evidente que a empatia e o respeito mútuo entre o presidente Álvaro Uribe e o seu colega Hugo Chávez não explicam o que ocorreu na recente reunião entre ambos os presidentes. Além disso, os acontecimentos das últimas semanas entre as forças em jogo e em um contraditório processo marcam a continuidade da reacomodação geopolítica em todo o âmbito latino-americano.   O que se está vendo ratifica que a tomada de decisões entre Estados diz respeito a interesses nacionais e não é improvisada, nem obedece a emoções circunstanciais. Existem profundas diferenças ideológicas e culturais que separam os dois mandatários, o que sugere que a afetuosa aproximação que ambos demonstram é só o veículo que permite a Chávez, em um primeiro momento, expor um roteiro preconcebido que busca a expansão e a afirmação de seu projeto bolivariano com pretensão de arraigo continental. 

Nesta ordem de idéias, o esquema de Caracas é um plano que contém objetivos e estratégias a longo prazo.  Em todo caso, o exposto em Bogotá por Chávez, em especial a renovação de uma busca de solução centenária para a divergência fronteiriça e o encaminhamento positivo dos processos de paz,  é atrativo para o seu interlocutor, por ser um negócio no qual todos ganham.  

De fato, caso ocorra a negociação oferecida sobre o diferendo limítrofe entre a Colômbia e a Venezuela, esse avance hipotético em direção a um acordo seria a única porta e oportunidade de solução no presente e no futuro, devido a que Chávez concentra todos os poderes do Estado e, portanto, restringe o papel dos anticorpos. Estes contraditores internose constantes na Venezuela, que incluem a opinião pública, sempre puseram a perder qualquer possibilidade de negociação e conciliação entre ambos os países. Entretanto, inclusive nas atuais circunstâncias, deve se levar em conta que negociar não é o mesmo que encontrar soluções satisfatórias. 

Sendo assim, surpreende a proposta de Chávez sobre a delimitação de águas marinhas e submarinhas, a não ser que “tudo dê em nada” como tem sido até agora nesta disputa fronteiriça. Surpreende ainda mais pelo custo político que teria para o caudilho venezuelano o fato de fazer qualquer eventual concessão territorial para a Colômbia.  

 

A NICARÁGUA, UM PEÃO DE BRIGA  

 

Dito o anterior, deve ser explicitado um contexto de vetores positivos e pugnazes, que confirma as motivações do movimento estratégico, para determinar quais são os fatores que justifiquem os custos a pagar. Entre as condições pugnazes é introduzida a Nicarágua como alavanca, como será visto mais adiante, em condição de peão de briga.Mas, em  primeiro lugar, estão os elementos que estimulam as aproximações com Bogotá:  

  • O primeiro vetor é a busca, por parte de Caracas, por alcançar um fim superior bem sucedido para a simples reivindicação ou congelamento de uma rivalidade por território ou mar territorial.  Neutralizada assim a Colômbia, por uma via até ontem não imaginada, dissolve-se o único obstáculo regional de envergadura para a construção de um projeto supranacional antiimperialista. Esse é o fim ut supraChávez denominou, em suas conferências reservadas de condução, que existe um eixo monroista que deve ser dissolvido como objetivo prioritário.  Este eixo, de acordo com a concepção do dirigente venezuelano, estaria constituído por Washington, Bogotá e Santiago do Chile.
  • Um segundo elemento necessário para Chávez é a necessidade de recuperar uma imagem positiva no âmbito internacional amplo, ao manter uma relação fluida e com reconhecimento explícito dos países inimigos dos Estados Unidos, tais como Cuba e o Irã, entre outros. Essa eventual recuperação de imagem amplia o seu impacto positivo sobre as sombras que gera a recente Reforma Constitucional venezuelana, que aumenta a apetência de perpetuação no poder e recorta as garantias para a sociedade civil venezuelana.
  • O terceiro aspecto desfavorável para Caracas e favorável para a aproximação com Bogotá é o evidente deterioro real de sua aspiração de integração com o MERCOSUL – por cima das simpáticas recepções públicas em Brasília e Buenos Aires -  o qual lhe reduz o cenário de porta-voz internacional pela resistência surda dos mais poderosos nesse grupo, principalmente do Brasil. Isso obriga a que aceitem novamente a sua presença na região andina e mostra a sua intenção de retornar à CAN.
  • O quarto aspecto que, em conjunto, favorece a aproximação, é a intervenção e mediação venezuelana ampla e aberta nos vários aspectos do conflito interno colombiano, via liberação de pessoas apontadas como paramilitares e detidas em Caracas. Um gesto de boa vontade que se soma a sua proposta de ser interlocutor no tema do intercâmbio humanitário, que inclui um inimaginável processo de negociação com as FARC - que tanto solicitam -  e o impulso às negociações com o ELN. Uma trama de possibilidades que, se prospera, poderia catapultá-lo como um paradoxo histórico, até o absurdo de ser cogitado a um prêmio Nobel da Paz. Alguns círculos áulicos do presidente venezuelano na América já começaram a mencioná-lo em corrilhos. Apesar de tudo isso, é bom assinalar que, à luz do “jogo Guaicaipuro”, a aproximação das FARC de mesas oficiais para abordar temas que resolvam o confronto militar é um veneno envolvido em açúcar, pois gera um precedente funesto na busca que o terrorismo faz na Colômbia para ser reconhecido como “beligerante”, ou seja, em pé de igualdade com o Estado ao qual impugnam.    

GUAICAIPURO, UMA ESTRATÉGIA DE GUERRA 

 

Mas o aspecto pendular da estratégia venezuelana leva a subtrair da somatória prévia, os aspectos que estão relacionados a seguir: 

  • O alentar, de maneira velada, as demandas nicaragüenses no Tribunal de Haia sobre o meridiano 82 e reviver assim um tema que se mantinha congelado, para abrir para a Colômbia uma nova frente de tensão. Este ponto é reforçado com a assinatura de um convênio com Manágua para a pesquisa e exploração petrolífera em águas colombianas por parte da empresa petroleira PDVSA e a simultânea presença de Chávez na Nicarágua no dia 20 de julho deste ano, durante a celebração do aniversário sandinista, coincidindo com a presença de Álvaro Uribe em exercício da soberania sobre San Andrés. 
  • A aquisição de armamento ofensivo que, apesar de competir com o poder militar do Brasil, em realidade não tem outra previsão que um enfrentamento hipotético com a Colômbia. As reiteradas intenções de Chávez diante de seus aliados, no começo de sua gestão presidencial, de atacar a Guajira colombiana e a recente oferta de 14 aviões de combate para a Nicarágua, reiteram estas afirmações.  
  • O desenvolvimento da estratégia de guerra Guaicaipuro** por parte do Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional, órgão dependente do Estado venezuelano.  Nesta estratégia, é ordenado um ataque preventivo contra a Colômbia, com a participação ativa da Nicarágua, do Equador e de Cuba e o reconhecimento das FARC como sujeito beligerante e não como terrorista. 

CENOURA E CHICOTE 

 

No quadro da situação descrito anteriormente, as redes de acordos de Chávez, inamistosas em relação à Colômbia, contrastam com atitudes e propostas conciliadoras, as quais pelo fato de serem antagônicas devem ter prioridade em sua execução.  A ordem correta do desdobramento na práxis será a de conciliação (cenoura), sustentado em retaguarda pelo poder dissuasivo do arsenal em construção e pelo espectro da ameaça (chicote) que este projeta sobre qualquer diálogo. 

Desta forma, Chávez oferece a Uribe uma ampla gama de oportunidades e soluções de problemas que, de não encontrar saída, podem limitar a governabilidade e o cumprimento de suas metas no que resta de gestão para o colombiano. 

Para Uribe não será este o primeiro, nem o último desafio no qual ele deva sair airoso. Uma de suas principais fortalezas é que nunca evita os desafios e, com freqüência, ele os busca.  É um líder pragmático, coerente, de convicções, sagaz e inteligente e, sobretudo, informado. Chávez não se mostra inferior ao seu interlocutor e vizinho, o que desequilibra essa relação de identidades e manifestações é que Chávez não só é audaz, senão que também é temerário. Os seus vínculos com a teocracia iraniana assim o consideram. Isso é precisamente umas das frentes de amizade que o distanciam dos potenciais aliados do Cone Sul, sobre os quais Chávez tinha apostado, até pouco tempo atrás, a sorte do ideal bolivariano.  

Sob tais circunstâncias e com o quadro de situação articulado, convém conhecer quais são os ganhos de cada um dos governantes, em termos de hipóteses descritivas de evolução possível. 

  • O esquema que se abre para Uribe significa governabilidade, prestígio e neutralização de conflitos iminentes e a solução do problema do intercâmbio humanitário.  
  • Para Chávez, é aberto um novo cenário de construção para suas expectativas de liderança continental, boa imagem e neutralização do denominado eixo monroista. Além disso, é uma legitimação da cabeça de uma ponte ideológica para potencializar a capacidade de influência interna na Colômbia, com projeção para o ano 2010 e as eleições presidenciais. 
  • Também gera um reposicionamento no antagonismo com os Estados Unidos e fortalece uma superioridade relativa na disputa pela liderança continental com o Brasil e sobre as reticências de Lula da Silva em relação ao seu estilo de governar. 
  • Os benefícios que obtém Uribe se vêem limitados ao tempo restante de sua gestão. Pode-se dizer que o objetivo é de uma ordem governamental discreta devido à escassez do cronômetro, mas que garantiria uma dimensão histórica de seu mandato.  Para Chávez, o assunto é extenso, de ordem estratégica e com objetivos a longo prazo: a construção supranacional de uma pátria latino-americana antiimperialista. 
  • A falta de uma visão estratégica e de um reconhecimento dos esforços e dos sacrifícios da Colômbia por parte dos democratas estadunidenses restringe as alternativas do presidente Uribe sobre os próximos cursos de ação e fortalecem as expectativas de que Chávez e Uribe se tornem “companheiros de rumo”, ainda que seus interesses sejam bem diferenciados.  

O presidente venezuelano joga duro e se perfila como o ganhador, portanto, é legítimo supor que há um grande perdedor, presente nestas jogadas de mestre: os Estados Unidos (aresprensa.com).

* Kerensky II é o pseudônimo de um reconhecido colombiano especialista em geopolítica e segurança regional americana. Guarda a sua identidade por razões de prurido intelectual e seguirá colaborando para a Agência de Imprensa ARES. O editor (070907).

** Guaicaipuro é um nome que identifica um cacique indígena venezuelano, que resistiu à presença espanhola e serve de suporte aos imaginários nacionalistas da atual gestão política venezuelana.

0.0
Actualizado: -/-
Articulos relacionados: SAN ANDRÉS, CONTRACARA DEL PARAÍSO SOL NEGRO PARA MACRI II LIBROS PARA LOS QUE EMPIEZAN SOL NEGRO PARA MACRI UN VIRAJE PARA MÉXICO SANTA ANA ESCRIBE PARA INTERPELAR BOGOTÁ: ¡TELÓN ARRIBA! TRES PASOS PARA EL CIERRE PALMA DE ORO PARA SUECIA ECUADOR: UN PASO PARA QUE NADA CAMBIE

Visitas acumuladas para esta nota: 1226

¡SÍGANOS Y COMENTE!